Geração Distribuída em Números

Este artigo foi elaborado através de gráficos compilados do SISGD da Aneel, que representam os números da micro e minigeração distribuída de energia (GD) no Brasil.

O Crescimento da GD no País é desigual

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O gráfico acima demonstra claramente as diferenças regionais referente a potência instalada de GD no país. Para termos uma ideia de como o Brasil é desigual, foram realizadas as seguintes simulações:

1. Somando a potência instalada de GD dos 19 estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste, alcança-se 40%, que é apenas 3% maior do que a soma da potência instalada dos 4 estados da região Sudeste que é de 37%;

2. Somando a potência instalada dos 16 estados das regiões Norte e Nordeste, que é igual a 23%, empata-se com a potência instalada dos 3 estados da região Sul do país, e, mesmo assim, perde-se feio para a potência instalada dos 4 estados da região Sudeste;

3. Se dobrarmos a potência instalada dos 9 estados da região Nordeste, ou seja, totalizaria 36%, ainda assim, perderia em potência instalada de GD para a soma dos 4 estados da região Sudeste.

Os números demonstram que existem vários níveis de crescimento da GD no Brasil. Encontra-se bastante sintonia do estágio de crescimento de GD com o nível de renda da população. Podemos afirmar com certa segurança que, quanto maior o nível de renda da população, maior será o crescimento de GD naquele estado ou região. Os formuladores de políticas públicas devem ficar atentos para esta realidade, visto que em alguns estados a GD está apenas dando os primeiros passos. Tomamos, como exemplo, alguns estados do Sistema Isolado da região Norte, e é justamente neles, que a GD pode ter mais importância para diminuir a dependência energética de outras regiões.

Porque a GD desperta tanta atenção do sistema elétrico nacional, vamos aos fatos:

1. Atualmente a fonte fotovoltaica representa 4.66 GW ou 97% da potência total de GD implantada no Brasil que é de 4.79 GW;

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2. São mais de 390 mil usinas espalhadas por todo o País, sendo que, 99% delas tem potência nominal de até 75 kW, ou seja, são micros usinas geradoras de energia. Essas micros usinas geradoras, respondem por 83% da potência instalada total de GD;

3. Um dado muito interessante é que 99,98% das usinas instaladas em GD tem potência nominal de até 1 MW. E aí reside um questionamento. Será que não era melhor para todos (consumidores e distribuidoras) limitar a GD para 1 MW de potência nominal, deixando usinas com potência superior este patamar para o ambiente livre de contratação?;

4. Dessa forma preservaria a GD para atendimento das demandas de famílias, micros e pequenas empresas que dela necessitam para reduzir os custos da conta de energia em seus orçamentos, como também, dos interesses de grandes grupos que enxergam na GD apenas mais um bom negócio;

5. Acontece que é justamente nas unidades consumidoras (UC) conectadas em baixa tensão que as distribuidoras cobram seus serviços, ou seja, a Taxa de Uso e Distribuição – TUSD que, atualmente, representa 40% do custo total da conta de energia;

6. Na GD há o sistema de compensação de energia, onde 1 kWh gerado corresponderá a 1 kWh a ser abatido no consumo a ser cobrado da UC geradora;

7. No valor desse 1 kWh está incluído: 40% de custo de distribuição; 8% de custo de transmissão; 31% de tributos; 3% de encargos; e, apenas 18% corresponde ao custo da energia;

8. Uma informação de muita relevância é que para o Sistema Elétrico Nacional a potência instalada de GD não existe, sequer consta de nossa Matriz Elétrica. Embora a potência instalada de GD seja superior as fontes de geração nuclear, carvão e a fotovoltaica centralizada, mesmo assim, é como se a energia gerada pela GD simplesmente não existisse, sendo desconsiderada pelo sistema;

9. Se avaliarmos o gráfico abaixo vamos perceber que 80% da potência instalada total de GD são de Unidades Consumidoras (UC) do grupo B, em tarifa monômia, onde o custo de ligação a rede corresponde a 30, 50 e 100 kWh a depender das fases de ligação;

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10. Considerando uma UC geradora do grupo B, trifásica (3 fases), que é onde se enquadra a grande maioria das UCs geradoras em GD, teremos um custo de disponibilidade de 100 kWh (consumo), ou R$ 90,00 em valor, e todo o consumo desta UC pode ser abatido pelos créditos gerados em GD, na razão de 1 kWh gerado, para 1 kWh consumido;

11. Já para as UCs do grupo A, que representam 20% da GD, o custo a ser pago é o da potência de demanda contratada, que gira em média de R$ 25,00 por kW (potência), e os créditos gerados são compensados primeiro no consumo fora ponta, na razão de 1 kWh gerado para 1 kWh consumido, e se houver sobra de créditos, serão compensados também no horário ponta, na razão de 1,6 kWh (em média) gerado para 1 kWh consumido;

12. A energia gerada nas próprias UCs consumidoras, que representam 81% do número total de UCs com GD, quando não consumida integralmente na própria UC, é exportada “gratuitamente” para a rede de energia, que por sua vez, conduz imediatamente essa energia para ser consumida em outras UCs da vizinhança;

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13. Uma observação se faz muito importante. Vamos acabar com essa conversa fiada de que a energia gerada por uma UC com GD e não consumida na mesma, é armazenada na rede de energia, depois retornando para ser consumida na mesma UC. Isso é mentira ou fake. A rede de energia é composta por fios e cabos, e estes, por sua vez, não têm propriedade de armazenamento de energia, mas de condução;

14. Aí reside o “Q” da questão. Primeiramente precisaríamos saber o quanto da energia gerada pelas UCs com GD está sendo consumida nelas mesmas, e o quanto está sendo exportado para a rede elétrica. Uma forma simples de se fazer isso é inventariando o Sistema de Compensação de Energia;

15. Precisamos quantificar essa energia entregue a rede “gratuitamente”, pois a mesma está sendo entregue ao sistema elétrico nos momentos de maior pico de consumo que ocorrem, em sua grande maioria, no período das 11 às 15 horas do dia, ou seja, no momento de maior demanda ou ativação das usinas térmicas. Para se ter uma ideia do quanto está sendo gerado em GD podemos fazer o seguinte exercício: 4,7 GW (potência) = 900 milhões kWh/m (geração) x R$ 0,16 (valor da TE) = R$ 144 milhões ao mês. Quanto dessa energia está sendo entregue a rede “gratuitamente”?;

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16. As Unidades Consumidoras (UC) das classes de consumo residencial (39%) e comercial (38%) representam 77% de toda a potência instalada de GD. Isso acontece em virtude da GD ser o mais eficaz e o melhor recurso energético distribuído (RED) a ser utilizado para diminuição dos custos fixos com energia elétrica;

17. Os investimentos em GD no Brasil, que comprometeram a renda e a poupança das famílias e a capacidade de investimento e endividamento das empresas, foram efetivados com o objetivo e a expectativa de reduzir o impacto ou o peso da conta energia, que é mensal, no bolso do cidadão e no caixa das empresas brasileiras;

18. O rápido crescimento da potência instalada de GD na classe de consumo rural, que já representa 13% da potência total de GD, denota os anseios do homem do campo na busca de maior sustentabilidade financeira para seus negócios, além de aumentar a qualidade ambiental ou verde de seus produtos;

19. A GD atualmente é o único remédio ou vacina eficaz contra o câncer da conta de energia que atualmente está matando milhares de negócios por todo o País. Além de ser o único remédio ou vacina, os efeitos da GD no Brasil são muitos benéficos. Criou mais de 200 mil empregos, fornece energia no horário de pico de consumo, evitando o uso de térmicas, deixou de emitir 1,1 milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera, gerou investimentos privados de mais de R$ 20 bilhões na economia, arrecadando aproximadamente R$ 4 bilhões em tributos para as 3 esferas de governo;

20. O vertiginoso crescimento da GD vai de encontro aos anseios das famílias e empresas brasileiras que precisam manter a sua sustentabilidade financeira;

21. Fica uma pergunta, quais são os impactos negativos que a GD produz para o setor elétrico brasileiro?

22. Para respondermos a esta questão precisamos ir mais fundo nos números. Precisamos conhecer efetivamente como está o balanço do Sistema de Compensação de Energia, ou seja, quantos créditos de energia estão sendo acumulados, em que horário estão sendo entregues, de qual classes de consumo, de qual modalidade de geração, de qual fonte, qual a periodicidade ou o tempo médio de devolução, etc.;

23. De posse desse inventário, será possível quantificar em R$ a entrega “gratuita” desses créditos nos horários de pico de consumo ao sistema elétrico, evitando ativação de fontes mais caras e poluentes;

24. Cálculos rápidos podem ser realizados para quantificar os impactos da GD. Por exemplo, temos cerca de 485 mil UCs com GD. O custo de disponibilidade médio seria de 60 kWh (média de 30+50+100 kWh) por UC do grupo B. Então teríamos, 485.000 UCs x 60 kWh x R$ 90,00 = R$ 2.6 bilhões pagos ao mês como custo de disponibilidade;

25. Enquanto nos EUA a potência de Geração Distribuída aumenta cerca de 3 GWp ao ano, por aqui, tem nego de cabelo em pé, com os 4,7 GW de potência alcançado pela GD, somando os 8 anos de sua regulação;

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26. A Índia como o Brasil, tem desigualdades regionais imensas. Os dois países se destacam como países emergentes, tendo em comum uma parcela da população empobrecida em todos os aspectos. Mas, no que diz respeito ao tratamento dado a energia solar a situação é bem diferente. Enquanto na Índia, a energia solar distribuída é fortemente incentivada pelo Governo como uma grande oportunidade de diminuição das desigualdades regionais, de geração de renda e ocupação para a população, e ao atendimento de localidades isoladas desprovidas de energia, aqui no Brasil, com setores do atual governo acontece justamente o contrário;

26. São aproximadamente 900 mil MWh injetados na rede elétrica brasileira todos os meses. Como a média de consumo de energia em 2019 ficou em 162 kWh/mês por domicílio, a energia gerada pela GD daria para abastecer 5,5 milhões de lares brasileiros todos os meses;

27. Os números falam por si só, mas no Brasil isso pouco importa, presos a uma cartilha tida como ultrapassada em seu próprio berço, a equipe econômica do governo e alguns elementos do setor elétrico fazem de tudo para obstaculizar o crescimento da energia solar, querendo taxar o sol, cortar incentivos, gerando insegurança jurídica a todo momento. Para alguns, a energia do sol que se dane, parece que bom mesmo, é a velha fumaça das chaminés…

Daniel Lima - Diretor RDSOL Rede de Negócios em Energia
Daniel Lima – Diretor RDSOL Rede de Negócios em Energia
Presidente | Associação Nordestina de Energia Solar- ANESOLAR

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