O mercado de capitais voltado para projetos sustentáveis sentiu os impactos da pandemia de covid-19 em março, mas deu uma demonstração de força com a emissão de US$ 16,6 bilhões de green bonds em abril, após despencar para US$ 3,4 bilhões no mês anterior – “títulos verdes” são emissões para financiamentos de empreendimentos que cumprem critérios ambientais e climáticos, como a mitigação de emissões.

Dados da Climate Bonds Initiative (CBI), que monitora o mercado e atua na criação de regras, enquadramento e na aproximação entre investidores e desenvolvedores de projetos. As emissões totalizam US$ 52,9 bilhões em 2020, incluindo certificações próprias da CBI ou alinhadas com seus critérios.

Mesmo com a crise – o FMI projeta retração de 3% no PIB global para este ano –, a CBI mantém a estimativa de crescimento no mercado de green bonds, para US$ 350 bilhões em emissões, +36% em relação a 2019 (US$ 258 bilhões).

“Mercados de dívidas seguem paralisados, ainda que sem fechamento formal. Poucas operações tem saído. E neste cenário, operações verdes têm tido uma demanda bem acima da média no mercado internacional, apresentando inclusive um excesso de subscrição, maior que o normal, com demanda 20 a 22 vezes maior”, explica Thatyanne Gasparotto, que chefia as operações da CBI na América Latina.

Reflexo de um desejo por “resetar o sistema”. Iniciativas de empresas, bancos e consumidores cobram que os pacotes de socorro e estímulos econômicos em implementação para amenizar ou acelerar uma retomada econômica tenham como premissa a transição para uma economia de baixo carbono.

“É a oportunidade de não cometermos os erros do passado”, afirma Gasparotto.

A executiva destaca o recentemente posicionamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), que lançou um guia para uma retomada econômica verde, apoiado em três pilares: uso de recursos públicos em projetos comprometidos com a redução de emissões; a promoção de green bonds no mercado de capital, precificando os riscos climáticos…

…E o ajuste dos preços do carbono – o FMI vem defendendo desde o ano passado a precificação da tonelada de carbono equivalente emitido na atmosfera em US$ 75, um salto na comparação com a precificação atual, da ordem de US$ 2 por tonelada.

“Essa transição deve ser justa e favorecer o crescimento [econômico]. Por exemplo, as receitas tributárias de carbono podem ser usadas para fornecer assistência às famílias mais pobres, reduzir cargas tributárias mais onerosas e apoiar investimentos em saúde, educação e infraestrutura”, defendeu Kristalina Georgieva, diretora do FMI na conferência virtual do 11º Petersberg Climate Dialogue, Alemanha.

Para o Brasil, foco da CBI é no potencial regional: o programa de concessões tocado pelo Ministério da Infraestrutura e a produção de biocombustível, especialmente do etanol, que atravessa um momento delicado com a queda nos preços do petróleo e na demanda por combustíveis.

“Temos um dos biocombustíveis mais eficientes do mundo. O setor está muito introspectivo neste momento, preocupados com seus problemas, mas é uma super oportunidade”, afirma Thatyanne Gasparotto. A produção de etanol já possui critérios para certificação e emissão de green bonds.

Há uma barreira cambial: o mercado internacional trabalha com ofertas da ordem de US$ 200 milhões a US$ 250 milhões. “Com o cambio atual estamos falando de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão, o que pode ser muito arriscado”.

Mas opções locais: a MP do crédito rural (MP do Agro), aprovada em março pelo Congresso Nacional, prevê a escrituração de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) em dólar. “Talvez vejamos alguma operação no último trimestre do ano”, estima a executiva.

Fonte: epbr.com.br

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