Empréstimo do BNDES para grandes multinacionais com lucros bilionários do setor elétrico, será pago pelo povo brasileiro na Conta de Luz.

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O empréstimo bancário coordenado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para socorrer distribuidoras de energia deverá ser pago pelos consumidores em 54 a 60 meses nas contas de luz e terá mecanismos para evitar que clientes empresariais escapem do adicional tarifário simplesmente migrando para o mercado livre.

O secretário de Energia Elétrica, Rodrigo Limp, diz que o Ministério de Minas e Energia (MME) estuda um “cardápio de ações” para reduzir o valor total da operação e não vai ignorar o “horizonte de médio-longo prazo do setor para resolver um problema de curto prazo”. Ele enfatiza que a situação é “complemente diferente” da de 2014 e 2015, quando a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff tomou R$ 21 bilhões junto a instituições financeiras para resgatar as distribuidoras.

Segundo fontes ligadas à equipe econômica, o valor do novo empréstimo deve girar em torno de R$ 17 bilhões e levar mais algumas semanas para chegar ao caixa das empresas, devido à complexidade da operação. Ela envolve um “sindicato” de bancos comerciais.

Interlocutores do ministro Paulo Guedes trabalham com um cenário de 20% de queda do consumo e 20% de inadimplência no pagamento das faturas, o que reduziria a receita das distribuidoras – média de R$ 22 bilhões por mês em tempos normais – em cerca de 40% durante pelo menos 90 dias. Nos próximos três meses, conforme determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os atrasos no pagamento de boletos não podem incorrer em corte de fornecimento.

Limp não confirma valores, evita falar em números e garante que o MME está empenhado em encontrar outras alternativas para diminuir a conta do empréstimo. Tudo dependerá do que exatamente vai ser coberto pela operação. “Não há uma única bala de prata”, disse o secretário ao Valor.

Ele explica que as tarifas de 2020 já estavam pressionadas por outros dois fatores sem relação com a pandemia de coronavírus no país. Um é o aumento de R$ 4 bilhões nas despesas da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) – o fundo setorial para bancar subsídios – que são rateadas pelos consumidores do sistema interligado. Outro é um acréscimo de R$ 3 bilhões, a partir de julho, na remuneração das transmissoras por causa de novos “linhões” de energia que foram licitados nos últimos anos e agora estão entrando em funcionamento.


Para complicar, existe ainda um terceiro elemento de pressão: a desvalorização cambial, que afeta diretamente o valor da energia proveniente da usina binacional de Itaipu, cotada em dólar. Uma distribuidora com atuação no Centro-Sul, segundo Limp, tinha toda a sua cobertura tarifária da eletricidade de Itaipu com base em R$ 3,94 por dólar – ontem a cotação era de R$ 5,24.


Se tudo isso ou apenas parte será contemplado no empréstimo – além do problema imediato de fluxo de caixa das distribuidoras – é o que vai definir o tamanho da operação, explica o secretário. Para ele, na atual conjuntura de crise e perda de renda por causa dos efeitos econômicos da pandemia, a lógica de diferir essas pressões faz sentido.


Outras ações, como eventual redução dos contratos de compra e venda entre geradoras e distribuidoras, estão sendo analisadas pelo ministério a fim de atenuar a necessidade de recursos por empréstimo bancário. Outra possibilidade é a utilização de R$ 2,5 bilhões acumulados em um fundo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) que é alimentado por uma taxa sobre a receita das concessionárias do setor elétrico.

“O setor é reconhecido pelos investidores como atrativo, saudável, bem regulado. Não podemos ignorar o horizonte de médio-longo prazo para resolver apenas o problema de curto prazo”, afirma Limp, que coordena o comitê setorial do MME para lidar com os efeitos da pandemia.

O secretário lembra as operações feitas em 2014 e em 2015 para ressaltar que agora é uma situação diferente. Primeiro, afirma, porque as taxas de juros são outras. Na época, o CDI era de aproximadamente 11%. Agora, está inferior a 4% ao ano. Isso deixa bem menos pesado, para os consumidores, o custo diluído do empréstimo. Segundo, naquela época os reservatórios estavam esvaziados e as distribuidoras precisaram do auxílio para comprar energia cara (mais de R$ 800 por megawatt-hora) das usinas térmicas. Hoje, o preço do MWh encontra-se no piso do mercado “spot” (R$ 39,68).

“Em 2014, o governo precisava custear uma energia mais cara. Havia tirado o sinal econômico do preço, era para pagar térmica de R$ 600, R$ 800 [por MWh]. Segurou a tarifa com o empréstimo e não dava uma sinalização para se reduzir o consumo”, compara Limp, que era consultor legislativo da Câmara dos Deputados e exercia o cargo de diretor da Aneel até assumir o novo cargo, em março.

Segundo ele, um mecanismo evitará que grandes clientes das distribuidoras indústrias, hipermercados, shopping centers – migrem para o mercado de livre de energia para escapar do encargo de reembolso do empréstimo ao longo dos próximos quatro ou cinco anos. Esse comportamento foi verificado depois dos empréstimos feitos no governo Dilma. O mercado regulado ficou menor e quem continuou teve que pagar mais. “É uma lição que aprendemos do passado.”

Apesar dos avanços na operação, a diretoria da Aneel faz algumas ressalvas. Uma ala da agência não se opõe ao empréstimo, mas acredita que outras alternativas de financiamento merecem ser exploradas com ênfase. Uma possibilidade levantada pelo órgão regulador é securitizar os recursos das taxas de P&D e de eficiência energética nos próximos cinco anos, tendo como recebíveis as contribuições financeiras das concessionárias. As divergências foram expostas, na terça-feira, durante manifestação do diretor Efrain Pereira da Cruz em reunião do colegiado.

Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/04/16/emprestimo-a-distribuidora-sera-pago-em-ate-60-meses.ghtml

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