Muito se tem discutido e especulado atualmente sobre as possíveis mudanças no regramento da miro e mini geração distribuída, em especial com foco no sistema de compensação de créditos energéticos instituído em 2012 pela REN 482 da ANEEL.

Este artigo procura trazer uma compilação ampla de benefícios que demonstram a enorme agregação de valor pela Geração Distribuída, em especial a de matriz Fotovoltaica (GD FV) em várias dimensões da atividade humana e da sociedade.

O objetivo é mostrar que esta discussão é muito mais ampla e transcende os aspectos técnico-regulatório-financeiros do sistema elétrico nacional, mas têm impacto fundamentalmente social, econômico e ambiental.

Plano ECONÔMICO:

  • Contribui diretamente para o desenvolvimento econômico em todas as regiões do país: impulsiona o comércio
    (de todos os portes, da loja de materiais elétricos ao grande distribuidor de equipamentos), os serviços (técnicos
    e não técnicos, do instalador FV ao gestor de mídias sociais na agência de marketing), e a indústria (em vários
    segmentos, da metalurgia ao fabricante de painéis). O desenvolvimento não fica apenas nos grandes polos
    industriais/ centros urbanos e com as grandes empresas.
  • Cria valor para o cliente final, seja residencial, comercial ou industrial. Ao gerar a própria energia e
    eventualmente injetar o excedente na rede, economiza capital que pode ser reinvestido na própria empresa ou
    em benefício da família. Embora muitas vezes cativo, o consumidor passa a ter um pouco mais autonomia e
    flexibilidade em relação à sua forma de usar a energia elétrica. Além de ter seu imóvel mais valorizado.
  • Os governos, nos três níveis, participam da arrecadação de impostos também de maneira descentralizada,
    especialmente com o ISS nos municípios e o ICMS para os estados.
  • Gera empregos de uma maneira impressionante: para quem atua diretamente com FV (P&D, fabricação,
    marketing, venda, projeto, instalação, manutenção, suporte, etc.), mas também para todas as demais atividades
    que indiretamente fazem parte desta cadeia produtiva (logística, comunicação, educação e treinamento,
    publicidade, financiamento, seguros, e várias outras).
    Por exemplo, uma equipe de instalação FV idealmente é composta por 2-3 pessoas. Assim uma pequena
    empresa da área gera atividade para pelo menos estas pessoas. Adicione-se as demais atividades, multiplique-se isto pelo número de empresas do ramo no país, e adicione-se os empregos indiretos. É muito emprego!
  • Menos acionamento de termelétricas, menos bandeiras amarela e vermelha, menos perdas na rede, menos
    cara a energia elétrica para todos. Energia mais barata, menos inflação, mais negócios, mais crescimento.
  • Suporte à recuperação da atividade macroeconômica nacional que encontra-se desde 2014 alternando
    períodos de recessão e de crescimento lento.

Plano SOCIAL:

  • A geração FV é inclusiva: mais mulheres e grupos tradicionalmente segregados têm tido oportunidade de
    trabalhar na área. Inclusive, grandes empresas do setor têm se preocupado com políticas de contratação de
    forma a lutar contra o racismo e outras formas de discriminação.
  • Com mais empregos por todo o país, melhora-se índices como distribuição de renda e renda per capita.
  • Mais oportunidades para pessoas de baixa renda exercerem atividade remunerada.
  • Com incentivo público e ou privado, geradores FV podem melhorar a qualidade da energia em comunidades
    mais remotas onde existe intermitência no fornecimento e, com isto, a qualidade de vida nestes locais.
  • Mesmo as funções mais básicas necessárias à execução de um projeto FV exigem um grau mínimo de
    qualificação da mão de obra, como um auxiliar de eletricidade que precisa ter ensino médio, qualificação técnica
    e de saúde e segurança no trabalho (NR’s).

Plano AMBIENTAL:

  • Contribui para o alcançar as metas internacionais de redução de carbono e a transição para as energias limpas.
  • Menos queima de combustíveis fósseis, menos emissão de gases do efeito estufa.
  • Geradores FV descentralizados são muito flexíveis em termos de tamanho/ potência, podendo variar de alguns
    Poucos módulos até dezenas ou centenas. Desta forma, podem ser instalados em superfícies como telhados,
    lajes, coberturas e outras, poupando-se área de solo que pode ser usada para outros fins urbanos ou rurais.
    geradores FV são silenciosos, não têm partes móveis e o acesso para manutenção é mais simples do que a
    uma turbina hidráulica ou a um aero gerador. Desta forma, podem ser instalados em áreas densamente
    povoadas ou inseridos em um ambiente natural sem impactos ou riscos e com operação mais simples.
  • O alto grau de reciclabilidade dos equipamentos (módulos FV com base em silício têm acima de 90% de
    reciclabilidade) permite que o ciclo produção-uso-reciclagem seja completo e eficiente.

Plano EMPRESARIAL/PRODUTIVO:

  • Estímulo ao empreendedorismo. Somos mais de 20mil empresas no Brasil atuando diretamente no setor.
  • Criação de oportunidades em diversas áreas e até mesmo de novas profissões.
  • Desenvolvimento de novos modelos de negócio.
  • Cria e organiza novas cadeias produtivas de alto valor agregado dentro da dinâmica econômica nacional e
    mundial.

Plano TECNOLÓGICO:

  • Reforça a tendência global de transição não só para energias limpas, mas para sistemas de energia elétrica
    mais descentralizados, onde entrarão novas tecnologias como as de armazenamento e inteligência de rede.
  • Facilita a introdução de novas formas limpas de locomoção e produção, como veículos elétricos ou híbridos,
    drones e outros.
  • Abre novas perspectivas de pesquisa, desenvolvimento e aplicação de produtos, materiais, software/IA,
    soluções e serviços por parte de universidades, centros de pesquisa e empresas.
  • Fomenta a disseminação mais ampla dos conhecimentos requeridos para atuar diretamente na área FV:
    tecnologia, regulamentação, engenharia, SST etc.
  • A tecnologia dos painéis, inversores e demais componentes de um gerador FV já está muito madura. É
    confiável, permite monitoramento e gerenciamento remotos por integração em rede/ internet, e está
    preparada para novos desafios futuros como a redução da intermitência pela sua integração aos bancos de
    baterias.

Plano do SETOR ENERGÉTICO/ REGULATÓRIO:

  • Maior preservação da reserva de água em nossas hidrelétricas, especialmente em anos de estiagem, maior
    segurança para o SIN.
  • Redução das perdas intrínsecas ao sistema elétrico integrado (transmissão e distribuição).
  • Sistema de distribuição mais estável e com melhores indicadores de qualidade a medida em que mais
    geradores FV são disseminados pelas regiões de uma zona urbana, e pela criação das chamadas “micro redes”.
  • Contribui para o SIN suportar melhor o horário de pico de consumo, que é quando os geradores FV estão no
    melhor momento de geração diária.
  • Abre novas perspectivas para quando ocorrer a flexibilização do setor, com os consumidores e produtores de
    energia tendo mais opções de escolha nos mercados cativo e livre.
  • Força o setor regulatório (agências de governo) a rever regras e criar (novas) perspectivas/ modelos para os
    agentes do mercado, beneficiando consumidores e empresas.
Leandro de Almeida
Engenheiro Eletricista pela UTFPR
Responsável Técnico pela Meridian Energia Solar

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