Em um cenário global onde a busca por energia limpa e abundante é uma prioridade inquestionável, o Brasil se encontra em um paradoxo intrigante. Enquanto o sol e o vento oferecem um potencial energético vasto e crescente, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem direcionado esforços para desenvolver mecanismos que, em essência, limitam ou “desligam” essa abundância. A recente notícia sobre a criação de uma “segunda linha de defesa” para conter o excesso de oferta de energia, especialmente a solar, levanta uma questão fundamental: estamos realmente focando nas soluções certas para o futuro energético do país?
Abundância sob Restrição
O crescimento da energia solar e eólica na matriz energética brasileira é inegável e louvável. Em 2024, a energia eólica e solar já representavam 24% da eletricidade do Brasil, mais que dobrando sua participação em cinco anos. Em alguns meses, essas fontes chegaram a gerar mais de um terço da eletricidade total. Contudo, essa expansão tem sido acompanhada por desafios operacionais, como a elevação da frequência da rede em períodos de alta geração e baixo consumo, especialmente em feriados e fins de semana ensolarados. Para lidar com isso, o ONS está implementando o Esquema Regional de Alívio de Geração (ERAG), um mecanismo que prevê o corte automático da geração, inicialmente focado em usinas de minigeração remota e usinas Tipo III (PCHs e biomassa). Um exemplo notório ocorreu em 7 de junho de 2026, quando o ONS precisou desconectar 1 gigawatt (GW) de usinas para manter a estabilidade do sistema.
O ONS justifica essas medidas como essenciais para a segurança operativa do Sistema Interligado Nacional (SIN), buscando evitar desequilíbrios que poderiam levar a blecautes. No entanto, a abordagem de “cortar” a geração levanta um questionamento crucial: em um país com uma demanda energética crescente, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta um crescimento de 3,8% ao ano até 2030, por que a solução para a abundância é a restrição?
O Paradoxo das Perdas e a Mentalidade da Escassez
Enquanto o ONS se preocupa em gerenciar o “excesso” de energia, o Brasil enfrenta perdas significativas em sua rede de distribuição. Em 2024, as Perdas Técnicas (PT), inerentes ao transporte de energia, variaram entre 7,2% e 7,4% da energia injetada na distribuição, custando cerca de R$ 11,2 bilhões. Mais alarmante ainda são as Perdas Não Técnicas (PNT), popularmente conhecidas como “gatos” e fraudes, que representaram entre 6,2% e 7,5% da energia injetada, totalizando um custo de R$ 10,3 bilhões em 2024. Desse valor, R$ 6,8 bilhões foram repassados diretamente para a tarifa dos consumidores. Juntas, essas perdas somam mais de R$ 21,5 bilhões anuais, um montante que supera em muito os desafios pontuais de frequência que o ERAG busca resolver.

