O Brasil construiu uma reputação internacional como uma das maiores referências em energias renováveis. Com uma matriz elétrica composta por mais de 80% de fontes limpas, o país reúne condições privilegiadas para liderar a transição energética global. No entanto, os dados mais recentes mostram um cenário que merece atenção: embora continue entre os maiores mercados de energia solar do mundo, o ritmo de crescimento brasileiro perdeu força, fazendo o país cair em importantes rankings internacionais.
Os números evidenciam essa mudança de posição. Em 2023, o Brasil ocupava o 3º lugar mundial em capacidade adicionada de energia solar, com 18,9 GW instalados no ano. Em 2024, caiu para a 4ª posição, mantendo o mesmo volume de novas instalações, mas sendo ultrapassado pela Índia. Já em 2025, o país passou ao 5º lugar, com 14,5 GWp adicionados — uma redução de aproximadamente 23% em relação ao ano anterior. Apesar desse desempenho, o Brasil encerrou 2025 como a 6ª maior potência mundial em capacidade acumulada de energia solar, atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia, Alemanha e Japão.
Essa desaceleração também se refletiu na percepção dos investidores. O relatório destaca que o Brasil perdeu posições no índice internacional que mede a atratividade para investimentos em energias renováveis, resultado influenciado pelo aumento do custo do capital, conflitos relacionados ao uso da terra e pela insegurança regulatória. Esses fatores elevaram o risco dos investimentos e reduziram a competitividade do mercado brasileiro.
Entre os fatores que mais impactaram o setor está o aumento do imposto de importação sobre células fotovoltaicas, que elevou o custo dos equipamentos e tornou novos projetos menos competitivos. Soma-se a isso o avanço do curtailment, situação em que usinas solares e eólicas precisam reduzir sua geração por limitações operacionais do sistema elétrico. Segundo o relatório, entre abril de 2024 e março de 2025, a média de cortes chegou a 17,1%, afetando diretamente a receita dos empreendimentos e aumentando a percepção de risco para novos investimentos.
Outro desafio importante é a dificuldade de conexão de novos sistemas de geração distribuída. Em diversas regiões do país, pedidos de acesso à rede vêm sendo adiados ou negados sob a justificativa de inversão de fluxo, dificultando a expansão da energia solar em residências, empresas e propriedades rurais. Ao mesmo tempo, juros elevados e a valorização do dólar aumentam o custo dos financiamentos e dos equipamentos importados, reduzindo ainda mais o ritmo de crescimento do mercado.
Enquanto o Brasil enfrenta esses obstáculos, outros países aceleram seus investimentos. A China continua ampliando sua liderança global, a Índia praticamente dobrou sua capacidade anual de instalação e a Alemanha retomou o protagonismo europeu com políticas públicas voltadas ao incentivo da energia solar. O contraste demonstra que a competitividade do setor depende não apenas do potencial natural, mas também de um ambiente regulatório estável, infraestrutura adequada e segurança para investidores.
Apesar dos desafios, o cenário também aponta oportunidades concretas para uma retomada do crescimento. O relatório identifica três vetores estratégicos capazes de impulsionar uma nova fase da energia solar no Brasil: o avanço do armazenamento de energia, que pode reduzir os impactos do curtailment; o desenvolvimento do hidrogênio verde, área em que o país possui elevada competitividade; e a expansão do mercado livre de energia, que amplia o acesso de consumidores às fontes renováveis.
Os resultados demonstram que o Brasil continua reunindo condições técnicas, climáticas e econômicas para ocupar posição de destaque no cenário mundial da energia solar. Entretanto, recuperar esse protagonismo exigirá investimentos em infraestrutura elétrica, maior previsibilidade regulatória, modernização da rede, incentivo ao armazenamento de energia e políticas públicas capazes de estimular novos projetos.
Mais do que manter boas posições em rankings internacionais, o desafio é criar um ambiente que permita à energia solar continuar gerando empregos, atraindo investimentos, reduzindo custos para consumidores e fortalecendo a segurança energética do país. O potencial brasileiro permanece intacto; transformar esse potencial em liderança dependerá das decisões tomadas hoje para construir o futuro do setor.
