A geração distribuída pesa na conta de luz ou fortalece a economia brasileira?
A geração distribuída (GD) tornou-se um dos temas mais debatidos do setor elétrico brasileiro. Enquanto milhões de consumidores enxergam na energia solar uma oportunidade de reduzir custos e conquistar maior autonomia energética, parte do debate público continua concentrada em um único argumento: o impacto da geração distribuída sobre a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
Mas será que essa análise considera toda a realidade?
Responder a essa pergunta exige olhar além dos custos e avaliar também os benefícios econômicos, sociais e energéticos produzidos pela geração distribuída. Quando essa conta é feita de forma completa, o resultado mostra um cenário muito diferente daquele frequentemente apresentado.
O debate não pode considerar apenas um lado da conta
Segundo dados do Subsidiômetro da ANEEL utilizados no estudo elaborado pelo economista Daniel Lima, o subsídio acumulado destinado à geração distribuída em 2026 alcançava R$ 10,42 bilhões até 14 de julho. Projetando esse valor para todo o ano, estima-se um custo aproximado de R$ 19,4 bilhões.
Esse número costuma ser utilizado isoladamente como argumento para afirmar que a geração distribuída representa um custo elevado para o sistema elétrico.
Entretanto, analisar apenas o subsídio significa ignorar todos os benefícios econômicos proporcionados pela própria expansão da geração distribuída.
Uma avaliação econômica consistente exige comparar custos e benefícios.
A geração distribuída reduz despesas do próprio sistema elétrico
Ao produzir energia próxima dos locais de consumo, a geração distribuída reduz a necessidade de utilização de fontes mais caras e diminui diversos custos operacionais do sistema.
Entre os principais benefícios econômicos destacados no estudo estão:
- redução do despacho de usinas termelétricas, com economia estimada entre R$ 8 bilhões e R$ 12 bilhões por ano;
- menor acionamento de bandeiras tarifárias, representando economia entre R$ 3 bilhões e R$ 6 bilhões anuais;
- redução das perdas técnicas na distribuição de energia, estimada entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões;
- postergação de investimentos em expansão da infraestrutura elétrica, com impacto entre R$ 2 bilhões e R$ 4 bilhões;
- redução do risco hidrológico, preservando reservatórios e diminuindo custos financeiros entre R$ 1 bilhão e R$ 3 bilhões;
- benefícios operacionais adicionais, como redução de perdas comerciais, maior confiabilidade local, menor necessidade de expansão térmica e menor custo de transmissão.
Esses fatores demonstram que a geração distribuída não apenas produz energia limpa, mas também reduz despesas que, de outra forma, seriam repassadas aos consumidores.
Os impactos econômicos vão muito além do setor elétrico
Os benefícios da geração distribuída não se limitam à operação do sistema elétrico.
Com base em dados públicos citados no estudo, a expansão da geração distribuída também impulsiona diversos indicadores econômicos nacionais.
Entre os resultados apresentados estão:
- aproximadamente 1,45 milhão de empregos relacionados à geração distribuída;
- cerca de R$ 69,5 bilhões em tributos arrecadados;
- aproximadamente R$ 221 bilhões em investimentos privados;
- mais de 8 milhões de unidades consumidoras recebendo créditos de energia;
- preservação de renda das famílias, estimada entre R$ 14 bilhões e R$ 24 bilhões por ano, em função da redução nas despesas com eletricidade.
Esses números mostram que a geração distribuída movimenta cadeias produtivas, gera emprego, amplia investimentos e fortalece a economia nacional.
Quando todos os números entram na conta, o resultado muda completamente
A projeção apresentada no estudo estima um subsídio anual da ordem de R$ 19,4 bilhões.
Por outro lado, considerando apenas parte dos benefícios econômicos diretamente mensuráveis, o retorno anual proporcionado pela geração distribuída varia entre R$ 33 bilhões e R$ 54 bilhões.
Em outras palavras, para cada R$ 1 destinado ao incentivo da geração distribuída, o Brasil recebe entre R$ 1,70 e R$ 2,80 em benefícios econômicos.
Esse resultado reforça que a discussão não deve ser limitada ao custo da CDE. Uma análise econômica completa precisa considerar também os ganhos para consumidores, empresas, sistema elétrico e economia nacional.
O desafio está na integração, não na geração distribuída
O crescimento acelerado da geração distribuída traz novos desafios operacionais para o sistema elétrico brasileiro. Aperfeiçoar o planejamento, modernizar a infraestrutura, ampliar o armazenamento de energia e desenvolver mecanismos de integração são etapas fundamentais para acompanhar essa evolução.
Isso, porém, não altera o fato de que a geração distribuída se consolidou como um dos pilares da segurança energética brasileira, contribuindo para reduzir a necessidade de despacho de termelétricas, preservar reservatórios hidrelétricos e aumentar a eficiência do sistema.
O debate sobre seu futuro deve ser conduzido com base em dados, evidências e análises econômicas completas.
A conta fecha e fortalece o Brasil
A expansão da geração distribuída deixou de representar apenas uma alternativa para redução da conta de energia.
Ela passou a desempenhar um papel estratégico para o desenvolvimento econômico, geração de empregos, atração de investimentos, aumento da arrecadação, preservação da renda das famílias e fortalecimento da segurança energética nacional.
Mais do que discutir apenas o custo dos subsídios, é fundamental avaliar o retorno que esse modelo entrega à sociedade.
Os dados analisados no estudo apontam uma conclusão clara: quando todos os impactos econômicos são considerados, a geração distribuída devolve ao Brasil mais do que recebe, consolidando-se como um investimento capaz de produzir benefícios para consumidores, empresas e para todo o sistema elétrico.
Crédito da análise
Esta matéria foi desenvolvida com base no artigo do Linkedin “A Verdade Econômica sobre a Geração Distribuída no Brasil: A Conta Fecha?”, elaborado pelo economista Daniel Lima, utilizando dados públicos da ANEEL e demais fontes citadas pelo autor.
