Onde, no Brasil, a geração distribuída deve crescer mais rapidamente?

São Paulo, 23 de Janeiro de 2026 – A geração distribuída (GD) deve apresentar crescimento mais acelerado nos estados das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil nos próximos anos, disse à BNamericas Carlos Evangelista, presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD).
A expectativa é que essas regiões ampliem sua participação no mercado, impulsionadas pela alta irradiação solar e pela busca crescente por alternativas próprias e pela redução dos custos com energia.
Atualmente, o estado de São Paulo está isolado na liderança, com 6,2GW de capacidade instalada e 656.869 unidades, seguido por Minas Gerais, com 5,6GW e 407.700 unidades, e Paraná, com 4GW e 305.239 unidades.
“Embora São Paulo, Minas Gerais e Paraná devam permanecer entre os líderes em termos absolutos,o ritmo de crescimento percentual deve ganhar mais velocidade em estados hoje com menor nível de penetração da GD, o que pode levar a mudanças graduais na composição do ranking nos próximos anos”, avalia Evangelista.
| ESTADO | REGIÃO | QTD GD | POT. INSTALADA (kW) |
| SP | Sudeste | 656.869 | 6.291.350,32 |
| MG | Sudeste | 407.700 | 5.627.177,35 |
| PR | Sul | 305.239 | 4.096.852,37 |
| RS | Sul | 390.974 | 3.660.437,31 |
| MT | Sudeste | 213.729 | 2.903.749,13 |
| BA | Nordeste | 263.293 | 2.349.263,17 |
| GO | Centro-Oeste | 170.776 | 2.296.172,16 |
| MS | Centro-Oeste | 160.377 | 1.783.801,63 |
| RN | Nordeste | 14.756 | 205.059,77 |
| AC | Norte | 15.037 | 164.026,82 |
| AP | Norte | 12.220 | 144.928,71 |
| RR | Norte | 8.587 | 116.065,40 |
| RJ | Sudeste | 177.447 | 1.760.548,84 |
| CE | Nordeste | 135.938 | 1.612.571,50 |
| SC | Sul | 150.670 | 1.531.105,82 |
| PA | Norte | 145.864 | 1.517.270,19 |
| PE | Nordeste | 147.457 | 1.377.330,38 |
| ES | Sudeste | 94.332 | 1.238.346,18 |
| MA | Nordeste | 80.431 | 930.372,38 |
| PI | Nordeste | 83.587 | 807.857,77 |
| RO | Norte | 55.468 | 686.777,72 |
| TO | Norte | 58.558 | 643.320,17 |
| AL | Nordeste | 51.659 | 601.319,16 |
| PB | Nordeste | 47.794 | 576.834,11 |
| DF | Centro-Oeste | 30.610 | 530.437,59 |
| AM | Norte | 15.846 | 288.915,65 |
| SE | Nordeste | 23.310 | 280.180,46 |
Fonte: Aneel
Segundo o presidente da ABGD, a liderança de São Paulo, Minas Gerais e Paraná resulta de uma combinação de fatores estruturais, econômicos e regulatórios. São estados que concentram grandes mercados consumidores, com elevada densidade de residências, comércios, indústrias e propriedades rurais, o que amplia o potencial de adoção da GD.
Esses estados também possuem cadeias produtivas mais maduras, com forte presença de integradores, fornecedores, instituições financeiras e mão de obra qualificada, o que reduz custos, acelera projetos e amplia a escala de implantação.
Evangelista destacou que, no início, houve uma liderança de Minas Gerais impulsionada pela isenção de ICMS na energia injetada – estratégia que foi adotada posteriormente por outros estados, uma vez que não há fato gerador de ICMS no caso de produção da própria energia.
Dados do setor
De acordo com dados da Aneel, a GD ultrapassou recentemente 44GW de capacidade instalada no Brasil. São 3,9 milhões de unidades distribuídas em 5.565 municípios de todas as regiões do país.
A fonte solar fotovoltaica responde por aproximadamente 99% da potência instalada da geração distribuída no Brasil. O restante inclui outras fontes, como biogás a partir de resíduos agroindustriais, potencial hidráulico por meio de pequenas centrais e sistemas de microgeração hídrica, além de biogás oriundo de resíduos urbanos.
Riscos
Segundo projeções da ABGD, o setor deve registrar crescimento estimado de 15% na potência instalada em 2026, chegando a 50GW.
Para Evangelista, o principal risco regulatório para 2026 está relacionado a tentativas de alteração antecipada ou retroativa das regras de transição previstas na Lei nº 14.300/2022. “Qualquer movimento que fragilize esse marco legal compromete a segurança jurídica e afeta diretamente a confiança de investidores e consumidores”, afirmou o executivo.
O marco dividiu os consumidores em grupos: GD1, com direito adquirido e sem cobrança do Fio B até 2045; GD2, com protocolos até julho de 2023 e cobrança gradual do Fio B até 2030; e GD3, com protocolos após julho de 2023 e transição mais rápida até 2028. O objetivo é cobrar o uso da rede (Fio B) de forma escalonada, mantendo a vantagem da energia solar.
O Fio B se refere à parcela da tarifa de uso do sistema de distribuição (TUSD) que remunera as distribuidoras pelo uso da infraestrutura da rede.
Outro ponto de atenção citado por Evangelista é o debate sobre a valoração da energia injetada na rede e a possível criação de encargos adicionais sem base técnica consolidada.
“Há também preocupação com narrativas que buscam atribuir à GD custos sistêmicos, como os associados ao curtailment, apesar de a geração distribuída não estar conectada à rede de transmissão nem ser a causa desses problemas estruturais”, acrescentou.
Em novembro do ano passado, a Aneel aprovou um plano emergencial que autoriza o corte de geração conectada à rede de distribuição, afetando as usinas Tipo III, que não são despachadas centralizadamente pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).